Houve agravamento da variabilidade climática e tendência de aquecimento em Moçambique

O Relatório Anual do Estado do Clima de Moçambique em 2025, apresentado esta segunda-feira na cidade de Maputo, confirma o agravamento da variabilidade climática no país, evidenciando uma combinação cada vez mais frequente de eventos extremos, num contexto de aquecimento contínuo do sistema climático.

O documento foi apresentado por Isaías Raiva, Climatologista e Chefe do Departamento de Estudos e Aplicações em Meteorologia do Instituto Nacional de Meteorologia (INAM, IP), durante a cerimónia de celebração do Dia Mundial da Meteorologia.Na sua exposição, Isaías Raiva destacou que 2025 foi marcado por anomalias térmicas significativas em várias regiões do país, com temperaturas médias acima do normal climatológico. Este comportamento segue a tendência global, onde o ano figura entre os mais quentes já registados, confirmando a persistência do aquecimento global.Segundo explicou, o território nacional registou não apenas aumento da temperatura média, mas também maior frequência de dias quentes e noites tropicais, factores que têm implicações directas na saúde pública, na agricultura e na disponibilidade de recursos hídricos.No que diz respeito à precipitação, o relatório aponta para uma distribuição espacial e temporal cada vez mais irregular. Houve registo de chuvas intensas concentradas em curtos períodos, sobretudo na região centro e norte, contrastando com défices pluviométricos em outras zonas do país.Isaías Raiva sublinhou que esta irregularidade tem vindo a comprometer o equilíbrio dos sistemas produtivos, em particular a agricultura de sequeiro, que depende fortemente da previsibilidade das chuvas. “Estamos a observar um padrão em que a chuva já não se distribui de forma homogénea ao longo da época, o que aumenta o risco tanto de cheias como de secas”, explicou.O relatório analisa ainda o comportamento dos principais sistemas atmosféricos que influenciam o clima de Moçambique, com destaque para a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) e os sistemas de baixa pressão no Canal de Moçambique. Em 2025, verificou-se uma maior actividade convectiva associada a estes sistemas, contribuindo para episódios de precipitação extrema.Outro aspecto relevante abordado no documento prende-se com a temperatura da superfície do mar no Canal de Moçambique, que se manteve acima da média durante grande parte do ano. Este aquecimento oceânico favorece a intensificação de sistemas tropicais, aumentando o potencial de formação de ciclones mais intensos e de rápida evolução.De acordo com o climatologista, mesmo sob influência de fenómenos como La Niña, que tendem a induzir condições mais húmidas na região, o impacto do aquecimento global continua a sobrepor-se, alterando os padrões tradicionais do clima.O relatório faz igualmente referência aos impactos registados no país, destacando a ocorrência de eventos extremos com consequências socioeconómicas significativas. Entre estes, figuram cheias, inundações localizadas e períodos de seca, que afectaram infra-estruturas, meios de subsistência e a segurança alimentar de milhares de famílias.No plano técnico, o documento enfatiza a necessidade de reforçar a rede nacional de observação meteorológica, apontando lacunas na cobertura de estações, sobretudo em zonas remotas. A melhoria da qualidade e densidade dos dados é considerada essencial para aumentar a precisão das previsões e fortalecer os sistemas de aviso prévio.Isaías Raiva salientou ainda a importância da integração de novas tecnologias, incluindo modelação climática avançada e ferramentas baseadas em inteligência artificial, como forma de melhorar a capacidade de antecipação de eventos extremos.“A informação climática tem de chegar ao cidadão de forma útil e atempada. Não basta produzir dados, é necessário transformá-los em decisões que salvam vidas e protegem a economia”, referiu.O relatório enquadra-se num contexto em que Moçambique continua altamente exposto aos efeitos das mudanças climáticas, devido à sua localização geográfica e às características socioeconómicas. Neste sentido, o documento reforça a necessidade de políticas públicas orientadas para a adaptação climática, com enfoque na resiliência das comunidades.A apresentação do relatório decorreu no âmbito das celebrações do Dia Mundial da Meteorologia, evento que reuniu representantes do Governo, parceiros de cooperação, comunidade científica e académica, e que serviu também para reafirmar o compromisso do país com o reforço da capacidade institucional no domínio da meteorologia e clima.Com este documento, o INAM volta a colocar em evidência que o clima em Moçambique está a mudar de forma mensurável e acelerada, exigindo respostas cada vez mais técnicas, coordenadas e sustentadas.


Categoria: Sociedade

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