Dércio Alfazema: “A Polarização Política é uma Democracia de Mínimos e de Insultos”
Natural da Beira e com um percurso forjado no seio da sociedade civil, o analista político Dércio Alfazema traz em exclusivo uma visão incisiva sobre o atual estágio da democracia em Moçambique. Licenciado em Administração Pública e Mestre em Sociologia e Gestão de Desenvolvimento, Alfazema combina o rigor técnico de quem foi funcionário público com a sensibilidade de quem, há mais de 15 anos, acompanha os processos políticos do país como um “progressista que acredita na transformação”.
Um Percurso de Cidadania e Técnica




Dércio Alfazema não é apenas um rosto familiar nos debates televisivos; é um intelectual que vive a política na prática. Pai e marido dedicado, a sua trajetória é marcada por uma entrega profunda ao associativismo, tendo participado na fundação de diversas organizações da sociedade civil. Após anos a trabalhar nas instituições do governo, Alfazema dedica-se hoje a questões de boa governação, mantendo uma crença inabalável de que, embora o contexto do Estado seja lento, o progresso é o destino inevitável de Moçambique.
Em entrevista exclusiva, o analista mergulha nas raízes da polarização que fustiga o debate nacional e alerta para os perigos do populismo desprovido de base técnica.
As Raízes de um Sistema em Conflito




Para Alfazema, a polarização não é um fenómeno novo, mas algo intrínseco à génese do sistema político moçambicano. “Temos um sistema guiado por questões de ideologia, mas a sua base sempre foi o conflito bipartidário entre a Frelimo e a Renamo”, explica. O analista recorda que, mesmo após o Acordo Geral de Paz, o país viveu décadas de maturação com instituições democráticas ainda frágeis.
“Não era possível esperarmos ter um sistema democrático com instituições fortes quando o país apresentava fragilidades estruturais. O problema é que a polarização cimentou-se como o único modelo de política: para ser oposição forte, tem de se ser totalmente oposto a quem está no poder.”
Segundo o académico, este extremismo tem contribuído para a degradação da democracia, onde a capacidade de confrontação física ou verbal substituiu o debate construtivo. “Hoje, o que caracteriza a democracia em Moçambique é o elemento da violência. É uma democracia de mínimos, de insultos e de degradação.”
A Inspiração Global e o Perigo do Populismo Local



Questionado sobre a influência externa, Alfazema é claro: Moçambique inspira-se no contexto global de extrema-direita (citando exemplos como os EUA, Brasil e Portugal), mas aplica-o numa realidade social menos preparada para o filtro crítico.
“Lá fora, a população sabe separar o trigo do joio. Aqui, as lideranças buscam a inspiração e agregam o elemento da violência e do caos”, afirma, apontando o dedo ao que chama de “política de ódio” usada para mobilizar cidadãos que, muitas vezes devido ao analfabetismo funcional, têm dificuldade em interpretar fenómenos complexos.
Responsabilização vs. Amnistia

Um dos pontos mais fortes da análise de Alfazema reside na crítica ao modelo de reconciliação nacional baseado na amnistia sistemática. Para ele, o “engolir sapos em nome da paz” gerou um sentimento de impunidade que os novos atores políticos tentam explorar.
- O Ciclo da Violência: Políticos destroem bens e incitam conflitos, sabendo que haverá um acordo político e uma amnistia posterior.
- A Fatura Social: “Os políticos conseguem os seus entendimentos e partilham o que há para partilhar. E o povo? E quem perdeu investimentos ou a vida?”, questiona.
- Alfazema defende um “modelo pedagógico” de responsabilização: “Queremos paz e reconciliação, mas não podemos nos apressar na amnistia. É preciso que os políticos sintam as consequências dos seus atos.”
Educação e o Papel do Estado

Sobre a reintrodução da educação patriótica, o analista vê com bons olhos, mas alerta que os frutos são de longo prazo. “Temos gerações de adultos, inclusive políticos, que são literalmente analfabetos. Não vamos levar o ensino da ética e do patriotismo a quem já está no ativo e usa a fúria e a ira como ferramenta de voto.” Alfazema conclui reforçando que o Estado não pode ter “mãos atadas” por medo de manifestações. Seja na regulação das redes sociais contra as fake news, seja na atuação dos tribunais, as instituições devem impor-se. “O Estado tem de fazer o seu papel, porque senão nunca mais vamos ter instituições fortes. Este será o grande teste para a nossa democracia
Mídias e Redes Sociais: O Desafio da Segurança e da Ética


Sobre o papel das redes sociais e a intenção do Estado em regular conteúdos que representem ameaça, Alfazema pede cautela para não “politizar tudo”, mas defende a necessidade de instrumentos legais. “O Estado tem de se organizar. A questão da segurança, das fake news e dos boatos que levam a conflitos é importante. Aprovar leis é necessário para proteger o cidadão e os interesses superiores do Estado”, afirma.
Para o analista, o ambiente virtual não deve ser uma “selva”. Ele acredita que, tal como as leis de combate ao terrorismo, dispositivos que garantam a ordem são fundamentais para que Moçambique não caia em “listas cinzentas” internacionais e ofereça garantias de segurança. “Não podemos dizer que não podemos julgar ou responsabilizar porque temos medo. O Estado e as instituições devem se impor.”
A Degradação do Debate Televisivo

Alfazema não poupa críticas ao atual estado da comunicação social moçambicana, que vê como um espaço cada vez mais “selvagem” devido à disputa desenfreada por audiência.
“A grande disputa pelo protagonismo está a tornar o espaço mediático um palco de confronto. As televisões criam palcos para grupos entrarem em conflito porque isso gera audiência, mas a qualidade final é apenas um espetáculo, não um debate construtivo.”
O analista nota uma “degradação da qualidade” e lamenta que a mídia esteja se deixando levar pela polarização, tornando-se um palco para incentivar disputas ideológicas em vez de promover um debate patriótico e de ideias. Ele compara a situação atual à antiga “guerra comercial” entre telefonias móveis, sugerindo que poderá ser necessária a intervenção de reguladores para mediar este cenário e devolver a normalidade e a qualidade ao debate público.
