Prima Facie de Suzie Miller com direção do Expedito Araújo chega ao país


A capital moçambicana prepara-se para receber um dos mais aclamados fenómenos do teatro contemporâneo. Prima Facie, peça da dramaturga australiana Suzie Miller, estreia a 4 de Dezembro no auditório Vinícius de Moraes, no Instituto Guimarães Rosa (IGR–Maputo), numa encenação inédita do conceituado ator, encenador e pedagogo brasileiro Expedito Araújo, que celebra, com esta produção, 30 anos de carreira.
Traduzida para mais de 25 idiomas e actualmente em cartaz em países como Portugal e Brasil, Prima Facie chega a Moçambique com uma inovação mundial: onze atrizes de quatro nacionalidades vão partilhar o palco, interpretando a mesma personagem central, Tessa, cada uma trazendo nuances culturais e emocionais que reforçam o carácter universal da narrativa.


Um monólogo, onze vozes, múltiplos mundos
A montagem moçambicana apresenta um elenco composto por Ana Fernandes, Ana Mesquita, Carmen Alcobio, Catarina Caetano, Gina Montserrat, Giselda de Castro, Inês Santos, Mar Correia, Neira Gafur, Tânia Nobre e Tina Lorizzo, provenientes de Moçambique, Portugal, Itália e Espanha. Esta abordagem procura, segundo Expedito Araújo, “evidenciar que a dor e a violência baseadas no género não têm fronteiras são realidades humanas, não geográficas”.
A personagem Tessa uma advogada brilhante, oriunda de uma família humilde e habituada a defender acusados de violência sexual vê a sua vida virar-se do avesso após vivenciar, ela própria, uma agressão. A partir dessa fratura íntima, a peça convida o público a reflectir sobre o sistema judicial, a condição feminina e os mecanismos de poder que perpetuam injustiças
Uma obra que dialoga com o mundo contemporâneo


Uma obra que dialoga com o mundo contemporâneo
A força da narrativa tem provocado debates internacionais sobre a revisão de legislações relativas à violência sexual. Em Moçambique, a estreia também fomenta conversa: no dia 5 de Dezembro, após o espetáculo, decorre a sessão “Julgar Sob Perspectiva de Género”, com participação das juízas Elisa Boerekamp e Zarina Daúde, além de especialistas das áreas de justiça e género. A dramaturga Suzie Miller, antiga advogada de direitos humanos, afirma que Prima Facie só encontrou espaço para ser escrita quando o clima social — sobretudo após o movimento #MeToo — tornou impossível silenciar questões urgentes sobre violência e descrença no testemunho feminino. “O sistema legal foi moldado durante séculos por homens”, comenta. “Por isso, a lei sobre agressão sexual raramente encaixa na experiência vivida das mulheres


Uma autora premiada e uma peça que corre o mundo
Com mais de 20 peças apresentadas em centenas de montagens internacionais, Miller conquistou reconhecimento global. Prima Facie, protagonizada por Jodie Comer no West End e na Broadway, venceu o Tony Award e o Olivier Award — dois dos maiores prémios do teatro mundial.
A autora mantém ligação direta com as produções internacionais e acompanha com rigor artístico a montagem moçambicana, traduzida por Ana Mesquita.
Desde que chegou a Moçambique, Expedito Araújo tem dedicado a sua prática teatral ao trabalho comunitário, oferecendo formação gratuita a pessoas em situação de vulnerabilidade. A encenação de Prima Facie sintetiza essa visão humanista: teatro como ferramenta de consciência, empatia e transformação social. Após a temporada em Maputo, a partir de Fevereiro de 2026, a peça seguirá em digressão pelas regiões Centro e Norte do país, ampliando o acesso e a reflexão sobre um dos temas mais urgentes das sociedades contemporâneas

