IA no sistema financeiro exige dados robustos e supervisão humana

A inteligência artificial (IA) no sistema financeiro está a ganhar espaço em áreas como análise de crédito, deteção de fraude e gestão de risco, mas o seu impacto real dependerá da qualidade dos dados, da supervisão humana e da maturidade regulatória das instituições. O alerta foi deixado por Emely Pujólli Silva, na sua comunicação nas XVII Jornadas Científicas do Banco de Moçambique, em Maputo.

A investigadora defendeu que muitos dos sistemas atualmente designados como inteligência artificial funcionam, na prática, como modelos de aprendizagem automática, capazes de identificar padrões e produzir previsões, mas ainda limitados na capacidade de interpretação e ação autónoma no mundo real. Por isso, sublinhou que a decisão final deve permanecer sob responsabilidade humana, sobretudo em matérias sensíveis como concessão de crédito, estabilidade financeira e proteção do consumidor.

No debate sobre “Regulamentação e Utilização da Inteligência Artificial no Sistema Financeiro Nacional: Riscos e Oportunidades”, Emely Pujólli Silva destacou que a IA deve ser entendida como um sistema completo apenas quando consegue captar dados, aprender, interpretar, agir e adaptar-se. Contudo, afirmou que a maior parte das aplicações atuais ainda não integra todas estas etapas de forma plena.

A comunicação centrou-se também na importância dos dados como elemento estrutural. Segundo a investigadora, a eficácia dos modelos depende diretamente da qualidade da informação utilizada, sendo que dados incompletos, enviesados ou mal tratados podem comprometer decisões financeiras e gerar riscos sistémicos. Neste sentido, a governação de dados foi apresentada como o ponto de partida da inteligência artificial, e não o algoritmo em si.

No setor financeiro, a IA já é utilizada para apoiar decisões de crédito, identificar padrões de fraude, detetar anomalias em transações e melhorar a experiência do cliente. No entanto, a oradora alertou que estes sistemas devem ser vistos como ferramentas de apoio e não como substitutos da análise humana, defendendo a necessidade de validação institucional em todas as etapas críticas.

A investigadora salientou ainda que a tecnologia tem potencial para reforçar a inclusão financeira, sobretudo ao permitir avaliar clientes sem histórico bancário tradicional. Contudo, advertiu que modelos treinados com dados incompletos podem agravar desigualdades e excluir segmentos da população.

Outro ponto destacado foi a utilização de IA na deteção de fraude e monitorização de risco, através da identificação de padrões anómalos em tempo quase real. Apesar disso, reforçou que a identificação de sinais de alerta não deve ser confundida com confirmação automática de fraude, exigindo sempre análise complementar.

No plano regulatório, a intervenção sublinhou que a resposta das autoridades não deve limitar-se à autorização ou proibição de tecnologias, mas sim à definição de princípios como transparência, explicabilidade, responsabilidade humana, proteção de dados e mitigação de risco sistémico. Entre os desafios apontados estão a auditoria de modelos, a prevenção de discriminação algorítmica e a dependência de fornecedores tecnológicos.

Ao enquadrar a IA como uma infraestrutura emergente de decisão, a comunicação destacou que o futuro do sistema financeiro dependerá menos da tecnologia em si e mais da forma como esta é governada. Para Moçambique, a principal equação colocada passa por equilibrar inovação, inclusão e estabilidade, mantendo sempre a responsabilidade final nas instituições e nos decisores humanos.

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Categoria: Tecnologia

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