Talentos que Molda o Homem e o Atleta
No coração da “Chiveve”, o Futebol Clube da Beira não está apenas a erguer bancadas e a estender relvados sintéticos. O verdadeiro triunfo deste emblema moçambicano reside na sua “escola de vida”, onde treinadores jovens e atletas determinados forjam o futuro do desporto nacional sob a égide da disciplina e do sonho.
O pulsar do Futebol Clube da Beira (FC Beira) sente-se no pó dos campos de treino e na firmeza das palavras dos seus protagonistas. Mais do que um clube de futebol, a agremiação tornou-se um centro de referência na formação de camadas jovens, desafiando a lógica tradicional de apostar apenas na experiência “cinquentenária” para dar lugar ao vigor da nova vaga de técnicos moçambicanos.
A Aposta na Nova Vaga de Treinadores


No escalão de juvenis, o sentimento de gratidão é partilhado por Joaquim Horácio. Há dois anos na casa, o treinador descreve a entrada no clube como uma “surpresa” que se tornou numa realidade de crescimento mútuo. “O objetivo é crescer com este grande projeto e trazer mais troféus a esta casa, porque ela merece”, vaticina o técnico, que já celebra o sucesso de ter ajudado a lançar guarda-redes para o Moçambola.
“Aqui é uma Escola”: A Voz dos Atletas
Para quem corre dentro das quatro linhas, o clube representa a transição da juventude para a maturidade. Mirelson de Brando, médio ofensivo dos seniores, chegou da Zambézia para estudar e encontrou no FC Beira a sua bússola.
“Quando entrei no clube, era apenas um jovem que queria só jogar. Mas aqui tive ensinamentos que um jogador deve ter: organização e disciplina”, revela Mirelson, que hoje sonha alto: “Um dos meus principais sonhos é levar a seleção para o Mundial.”
Essa visão de “clube-escola” é reforçada por Leonel Canário, extremo de 17 anos descoberto num torneio de “caça-talentos” nos bairros da Beira. Para Leonel, o futebol foi o escudo contra os perigos das ruas. “Aqui não aprendemos só a jogar futebol, aprendemos a lidar com as situações de casa para que não pegássemos as drogas por aí”, confessa o jovem campeão.
A Determinação dos Veteranos da Casa


No escalão sénior, a responsabilidade de guardar as redes e a honra do clube recai sobre Fanuel Alexandre. Com seis anos de casa, o “capitão” das balizas não esconde o amor ao emblema e a sede de subir de escalão.
“Este é o clube do coração, um clube de responsabilidade. Além de ser um clube, é uma escola. O comportamento em casa influencia o que acontece aqui… se te comportas bem em casa, aqui tudo dá certo”, explica o guarda-redes. Após três segundos lugares consecutivos, Fanuel é categórico: “Eu sei que este ano o nosso objetivo e o dos jogadores vai ser levar o primeiro troféu.”
O Futuro no Horizonte do Estoril

Com as obras das bancadas a avançarem a olhos vistos e o pavilhão já em pleno funcionamento, o Futebol Clube da Beira prepara-se para deixar de ser apenas um “projeto” e afirmar-se como uma potência. A mensagem que ecoa dos balneários para a bancada é de resiliência. Como bem resume o jovem Mirelson: “Quando as pessoas esperam aprovações dos outros e não recebem, elas deixam-se cair. O meu conselho é: sejam as vossas próprias aprovações.”
A aprovação já chegou: vem sob a forma de golos, títulos e, acima de tudo, homens novos para Moçambique.
José Tavares é a prova viva de que o futebol moçambicano não precisa apenas de investimento financeiro, mas de resiliência e paixão. Ele “desceu à terra”, despiu o fato de empresário europeu e vestiu o fato de treino da superação.

Hoje, ao olharmos para o percurso deste homem que se dizia “velho” por ter nascido em 71, vemos alguém que rejuvenesceu o desporto na Beira. Ele não trouxe apenas táticas da UEFA; trouxe a estrutura, a exigência e, acima de tudo, a capacidade de ver um estádio onde outros só viam mato.
A Beira agradece, e o futebol moçambicano ganha um “estrangeiro” que, no fundo, já é mais nosso do que de Gaia.
