“Justiça com Perspectiva de Género” renova Prima facie com direção de Expedito Araujo
Inserida nas actividades do programa ÍNTEGRA, que promove a Semana da Mulher 2026 com iniciativas que cruzam cultura, cidadania e justiça. Financiado pela União Europeia e cofinanciado pela AECID e com texto de Suzy Miller e direção do Expedito Araujo, a montagem marca três décadas de carreira de um criador que tem feito do teatro um espaço de diálogo social e transformação. Depois de uma estreia esgotada em dezembro de 2025, o espetáculo regressa agora com ainda mais força simbólica, associando-se às celebrações do Dia Internacional da Mulher e às discussões sobre o acesso das mulheres à justiça.

“Prima Facie” acompanha a trajectória de Tessa, uma advogada de sucesso especializada na defesa de acusados de violência sexual. Confiante no sistema judicial, ela vê o seu mundo ruir quando uma experiência pessoal a obriga a confrontar as fragilidades da lei, os preconceitos de género e as relações de poder que atravessam os tribunais. O resultado é um monólogo intenso, incómodo e necessário, que expõe como a justiça, muitas vezes, falha justamente com quem mais precisa dela.

Um dos aspectos inéditos da encenação moçambicana é a opção por onze atrizes, de quatro nacionalidades, que se revezam na interpretação da personagem central. Este gesto artístico sublinha a universalidade da violência de género e reforça a ideia de que a história de Tessa pode ser a história de muitas mulheres, em diferentes contextos e geografias.

A autora do texto, antiga advogada, construiu a obra a partir de experiências pessoais e de uma leitura crítica e feminista do sistema legal. Traduzida para mais de 30 idiomas e apresentada em dezenas de países, “Prima Facie” tornou-se um fenómeno global, provando que o debate sobre justiça com perspectiva de género é urgente e transversal. Em Moçambique, a tradução ficou a cargo de Ana Mesquita, garantindo proximidade linguística e cultural ao público local.

Em Maputo, “Prima Facie” não é apenas teatro. É um espelho social, um convite ao desconforto e uma chamada à responsabilidade colectiva. Num país onde o debate sobre violência baseada no género continua actual, a peça afirma-se como um gesto artístico e político, alinhado com o lema da Semana da Mulher: justiça com perspectiva de género, hoje e sempre
