José Tavares: O Homem que Trocou o Betão pela Revolução no Relvado da Beira
Da “invicta” Vila Nova de Gaia às poeiras do Chiveve, a história do homem que transformou o capim em vitamina e deu um novo fôlego ao futebol da nossa praça.
Dizem que o destino tem destas coisas: prega-nos rasteiras para nos ensinar a fintar a vida. Para José Tavares, o homem cujo nome hoje se confunde com a reconstrução do futebol na Beira, a primeira grande rasteira veio aos 21 anos. Um acidente de carro roubou-lhe as chuteiras de jogador federado, mas não conseguiu travar a “bola” que já rolava lá dentro.
Nascido em 1971, em Vila Nova de Gaia, no coração do Norte de Portugal, Tavares parecia destinado ao setor da construção, onde geria a empresa familiar. Mas o bicho do futebol é teimoso. Enquanto levantava paredes, tirava cursos da UEFA. Entre o cimento e os treinos de formação na famosa Vista Alegre (aquela fábrica de loiça fina que é orgulho lusitano) e passagens pelo Pró-Nacional de Coimbra, o “Mister” ia forjando o seu estilo.
A Aventura que Virou Destino

Em 2012, Moçambique apareceu no mapa de José como uma “aventura”. Não era por falta de trabalho na Europa, era o chamamento do desconhecido. “Vou até lá, pode ser que arranje uma equipa,” pensou ele na altura. Mal sabia o gaiense que o solo moçambicano, que ele mal sabia onde ficava no mapa, se tornaria a sua segunda casa.
A transição não foi de seda. Após uma experiência menos boa no setor da construção logo à chegada, o ultimato foi dado a um amigo e cliente:
“Só fico aqui se me arranjares uma equipa para treinar. Quero divertir-me um bocado.”
E foi assim que, em 2013, o Têxtil do Púnguè entrou na sua vida. Mas o choque cultural estava apenas a começar.
“Mister, é aqui que vamos treinar?”

Habituado aos balneários imaculados e aos relvados “tapete” da Europa, Tavares deparou-se com a crua realidade do futebol de raiz no Chiveve. Quando o levaram ao campo de treino, no Matador, a reação foi digna de uma crónica de costumes:
“Eu não via campo nenhum. Estava no meio do capim! Perguntei: ‘Aqui para onde?’. E disseram-me que o capim ia sair. Comecei a ver os postes de eletricidade a servirem de baliza e pensei: ‘Estou tramado!’.”
Mas em vez de apanhar o primeiro voo de volta para o Porto, José Tavares usou essa dificuldade como gasolina. Onde outros viam desorganização, ele viu uma tela em branco.
O Homem dos Mil Ofícios

A revolução desportiva que Tavares liderou não se fez apenas com táticas no quadro preto. No Têxtil, ele percebeu que ser treinador em Moçambique era ser pai, motorista e gestor de logística.
- O Choque do Plantel: De um dia para o outro, não havia jogadores. “Amanhã, quando anunciarmos no jornal, aparecem 100”, disseram-lhe. E apareceram.
- Logística “Mão na Massa”: Tavares deu por si a transportar jogadores na sua própria carrinha e a procurar casas para os atletas morarem.
