Governo aposta em transformação e resiliência
O Governo moçambicano assumiu que os choques climáticos registados no início de 2026 alteraram significativamente os pressupostos macroeconómicos subjacentes ao Plano Económico e Social e Orçamento do Estado (PESOE), podendo implicar ajustamentos às perspectivas de crescimento inicialmente projectadas. A posição foi assumida pelo Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, em entrevista à Rádio Moçambique, no âmbito do balanço da execução do PESOE 2025 e das perspectivas para 2026.
Segundo Salim Valá, embora os instrumentos de planificação e monitoria indiquem um desempenho global “satisfatório” em diversos domínios, os eventos climáticos extremos introduziram novas pressões sobre a economia. “Todos os pressupostos foram afectados logo no primeiro mês com este advento climático extremo”, afirmou, referindo-se às cheias que provocaram danos infra-estruturais e perdas económicas relevantes, particularmente nas províncias de Gaza, Maputo e zonas do centro do país.


No balanço do PESOE 2025, o Ministro explicou que o desempenho foi mais visível nos pilares da unidade nacional, paz, segurança e governação, da transformação social e demográfica e da sustentabilidade ambiental, enquanto os pilares da transformação estrutural da economia e das infra-estruturas registaram níveis de execução relativamente mais baixos. Salim Valá atribuiu esta situação essencialmente à disponibilidade atempada de recursos e ao ciclo de procurement das infra-estruturas, que nem sempre acompanha a dinâmica anual de execução. O governante garantiu, contudo, que o Executivo está a reforçar o subsistema de monitoria e avaliação para acelerar a execução sempre que possível.
O Ministro destacou ainda que uma das prioridades de 2025 foi assegurar a estabilidade política e social num contexto de tensões pós-eleitorais. “Dedicou-se muito tempo à operacionalização do compromisso político para o diálogo nacional inclusivo, porque a estabilidade e a segurança são pressupostos fundamentais para o desenvolvimento”, afirmou, sublinhando a importância da confiança institucional para a atracção de investimento e recuperação económica, num país altamente exposto a choques externos e climáticos.


Um dos eixos centrais da intervenção de Salim Valá incidiu sobre o reforço dos instrumentos de financiamento à economia local, com destaque para o Fundo de Desenvolvimento Económico Local (FDEL). Em 2025, o fundo permitiu a alocação de 824,6 milhões de meticais, dos quais cerca de 60% destinados a jovens, com mais de 300 mil projectos submetidos a nível nacional. Para 2026, está prevista uma dotação de 1,5 mil milhões de meticais, quase o dobro do valor inicial, embora a procura exceda largamente os recursos disponíveis, com propostas submetidas mais de 40 vezes superiores ao montante disponível.
Salim Valá salientou ainda a dimensão demográfica como um activo económico estratégico. Com 66% da população com menos de 35 anos, o Governo procura transformar este capital humano em força produtiva, através de programas de capacitação, emprego juvenil e empreendedorismo, como o Acredita Emprega, o Meu Kit Meu Emprego e iniciativas de extensão agrícola e piscícola, que em 2025 beneficiaram dezenas de milhares de jovens e pequenos produtores.
A industrialização, o conteúdo local e a substituição de importações foram apontados como eixos-chave para reduzir vulnerabilidades externas e criar emprego sustentável. O Ministro destacou projectos como a Fábrica de Processamento Integrado (IPF), em Inhassoro, província de Inhambane, com capacidade para produzir 30 mil toneladas de GPL por ano, reduzindo em cerca de 70% as importações do produto. Outro exemplo é a fábrica de processamento de grafite em Nipepe, Niassa, investimento estimado em 200 milhões de dólares, com capacidade para processar 200 mil toneladas de grafite por ano e gerar cerca de 890 postos de trabalho directos, número que poderá atingir 2.000 numa segunda fase, fortalecendo o emprego estrutural e a base tributária do país.
Quanto a 2026, o Governo tinha inicialmente projectado um crescimento do PIB de 2,8%, inflação em um dígito e reservas internacionais capazes de cobrir quatro a cinco meses de importações. No entanto, Salim Valá admitiu que estes pressupostos estão sob revisão, após as perdas preliminares causadas pelas cheias, estimadas em cerca de 600 milhões de dólares, que poderão exigir um plano de reconstrução pós-cheias e eventual reprogramação das prioridades económicas.
Apesar dos choques, o Ministro defendeu que a recuperação deve ser encarada como oportunidade para reforçar a resiliência económica. “A nossa ideia é que a recuperação não seja apenas para repor o que foi perdido, mas para melhorar, diversificar e tornar a economia mais forte”, afirmou, destacando reformas em sectores estratégicos como saúde, água, energia, digitalização e habitação para jovens. Salim Valá enfatizou que, embora conscientes dos limites fiscais e institucionais, o Governo está determinado a manter uma trajectória de transformação estrutural, baseada na economia local, na juventude, na diversificação produtiva e na resiliência face a choques climáticos cada vez mais frequentes.

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