Bento Balói : “A literatura é o meu compromisso com Moçambique”

Nove anos depois de Recados da Alma chegar às mãos dos leitores, Bento Balói continua a trilhar o seu percurso literário com a serenidade e disciplina de quem sabe que a literatura não se faz com pressa, mas com constância. Em entrevista exclusiva, o escritor abre o coração sobre o seu trajecto, os desafios que moldaram a sua identidade criativa e a visão que projeta para o futuro da literatura moçambicana.

Sou ainda um autor a dar os primeiros passos”

Questionado sobre como descreve o seu percurso, Balói responde com humildade:

“Considero-me um autor que ainda está a dar os seus primeiros passos. O meu primeiro romance foi publicado há apenas nove anos. Ainda tenho muito que aprender; ainda tenho muito que crescer.”

Apesar do reconhecimento crescente, o escritor mantém-se fiel à rotina que o trouxe até aqui trabalho intenso, pesquisa contínua e a ambição de oferecer ao público novas propostas literárias.

Entre os momentos mais marcantes da sua carreira surge, inevitavelmente, Recados da Alma.

“A publicação do livro revestiu-se do sentimento forte de quem é pai pela primeira vez”, recorda, sublinhando que este foi o passo decisivo na construção da sua identidade no panorama literário nacional.

Desde então, tudo tem sido “construído com esforço e trabalho do dia-a-dia”.

Balói não romantiza o ofício:

“A escrita criativa é, em si, um desafio.”

Da pesquisa à definição da estratégia narrativa, o autor explica que cada decisão influencia a qualidade do edifício literário que procura erguer. Superar esses desafios exige escolhas assertivas e uma disciplina constante.

Sobre o momento actual da carreira, Bento Baloi mantém a mesma postura de humildade e foco:

“Ainda estou em fase de crescimento… há muitos livros ainda por escrever.”

Não há pressa,  mas há clareza no caminho.

O escritor afirma que os seus projectos continuarão a espelhar o país:

“Sou moçambicano, vivo em Moçambique, sinto e respiro o meu país.”

Entre temas históricos e contemporâneos, Baloi pretende continuar a contribuir para a consolidação da essência da moçambicanidade, sem tabus.

Literatura moçambicana: um presente vibrante

Sobre o actual cenário literário, o autor é optimista:

“O cenário literário nacional está bom. Temos novos e bons autores a surgirem todos os dias.”

Balói destaca nomes como Álvaro Taruma, Pedro Pereira Lopes, Eduardo Quive, Mélio Tinga e Virgília Ferrão,  escritores que, na sua visão, serão os sucessores naturais de figuras consagradas como Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khossa, Paulina Chiziane e João Paulo Borges Coelho.

Embora reconheça as dificuldades, BentoBalói lembra que a arte sempre encontrou espaço para florescer, mesmo nos momentos mais críticos da humanidade:

“Desde que haja seres humanos, haverá condições para que a literatura floresça.”

Ainda assim, alerta para a necessidade urgente de fortalecer o hábito de leitura, sobretudo entre os jovens, sugerindo a implementação de um Plano Nacional de Leitura.

ParaBalói , a literatura teve e continuará a ter um papel essencial na construção da identidade moçambicana. Da poesia de combate à busca de novos horizontes sociais, económicos e culturais, a palavra escrita mantém-se como instrumento de reflexão colectiva.

Futuro: crescimento e internacionalização inevitáveis

No final , Bento Balói deixa um conselho simples, mas poderoso:

“Trabalho, muito trabalho. O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.”

Esta entrevista revela um autor consciente do seu lugar, comprometido com o seu país e dedicado à construção de uma obra que ecoe, por muitos anos, a alma moçambicana.


Categoria: CulturaEntrevista

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