Arte que invade,questiona e permanece
Jorge Dias fala à Revista Ídolo sobre a instalação “Coisas”, identidade e o futuro da arte moçambicana




Num diálogo profundo e sem concessões à superficialidade, o artista plástico Jorge Dias abriu as portas do seu pensamento artístico numa entrevista exclusiva à Revista Ídolo, tendo como ponto de partida a sua mais recente instalação, “Coisas”, atualmente patente no Bean Coffee Shop, em Maputo, até ao dia 28 de fevereiro.
Trata-se de uma obra em permanente construção. “Coisas é um trabalho em aberto”, explica o artista, sublinhando que cada nova apresentação acrescenta leituras, temas e sentidos. Concebida originalmente há mais de sete anos, a instalação já percorreu espaços emblemáticos como a Fortaleza de Maputo, no Edifício sede do BCI, o Museu Nacional de Arte, a Ilha de Moçambique e até cidades do Brasil, assumindo sempre novas identidades sem deixar de ser ela mesma.




A atual montagem, sob curadoria de Sónia Sultuane, ganhou o título “Por dentro do núcleo Jorgiano”, composta por nove esculturas esféricas suspensas, formadas por pequenas casinhas de madeira e linhas. Instaladas no coração de um café em funcionamento, essas “coisas” contaminam o espaço, do teto ao chão, criando o que o artista descreve como um núcleo vivo, em germinação constante.
Mais do que escultura ou objeto fixo, “Coisas” é um trabalho que o “mesmo objeto, em espaços diferentes, transforma-se noutro trabalho”, afirma Jorge Dias. A obra provoca, desloca, exige do público um contorno físico e simbólico. Não se impõe pela narrativa, mas pela tensão: entre o estar e o deixar de estar, entre o peso e a suspensão, entre atração e repulsão.
Instalada num espaço não convencional um café, com cheiros, ruídos, conversas e silêncios a obra desafia a ideia sacralizada da arte confinada à galeria. “É uma invasão silenciosa”, diz o artista, reconhecendo que ali a arte não é essencial para a função do espaço, mas torna-se inevitável para quem o atravessa. E é justamente nessa fricção que reside a sua força.
Sobre a reação do público, Jorge Dias fala de curiosidade, aceitação mútua e bem-estar. A obra obriga o corpo a mover-se, a desviar-se, a reparar. E isso basta. “O pior seria não provocar reação nenhuma”, sublinha. Para o artista, a arte não precisa explicar-se; precisa questionar. Só dialoga verdadeiramente com quem está disposto a recomeçar o olhar.
O futuro aponta para fora e para dentro. Fora, com projetos expositivos internacionais. Dentro, com um trabalho curatorial mais focado, acompanhando de perto artistas moçambicanos e refletindo sobre a arte contemporânea e moderna do país. Em paralelo, Jorge Dias prepara um livro onde reúne a sua experiência como curador e pensador da arte em Moçambique.




Questionado sobre o estado da arte no país, o artista é direto: há talento, há qualidade e há mais espaços de exposição do que há 30 anos. O que falta são estímulos, políticas consistentes e investimento. Ainda assim, defende que o artista não pode depender exclusivamente do Estado. “A arte nasce da nossa capacidade produtiva e da nossa relação com o mundo”, afirma, lembrando que hoje é possível criar com quase tudo.
À classe empresarial, público central da Revista Ídolo, deixa um recado claro: arte não é despesa, é investimento. Diferente de mobiliário ou viaturas, a arte não se desvaloriza com o tempo. Pelo contrário, protege o capital, valoriza espaços e constrói património simbólico e financeiro. Investir em arte é investir em identidade, memória e futuro.




No final, Jorge Dias agradece. Ao Bean Coffee Shop, à curadora Sónia Sultuane e às pessoas que, num momento pessoalmente difícil, lhe devolveram a esperança. Porque, como a sua obra sugere, mesmo nos estados transitórios entre cair e permanecer, a arte continua a germinar.
