Em Economia, Não Existe Boa Vizinhança

Por: Fernando Matico

Em Moçambique, persiste um discurso recorrente entre os líderes políticos: a ideia de que os nossos vizinhos, Malawi, África do Sul, Zimbabué e Tanzânia, são países “irmãos”. Esta narrativa, embora aceitável numa perspectiva diplomática e de cooperação política, não se sustenta no campo económico. Na economia, não há fraternidade; há interesses. E é precisamente por isso que Moçambique deve abrir os olhos para a realidade do seu contexto geoestratégico e económico.

Com a descoberta de gás natural na bacia do Rovuma, Moçambique passou a ser observado com outros olhos. O país tornou-se uma potencial potência energética, com possibilidades reais de alterar o seu rumo de desenvolvimento. No entanto, esse crescimento pode representar uma ameaça para os vizinhos. Nenhum país quer ver o seu mercado fragilizado porque o parceiro do lado se tornou mais forte e competitivo. E, sejamos claros: nem a África do Sul, nem a Tanzânia ou qualquer outro país vizinho desejará ver Moçambique a liderar a economia da região.

A dependência destes países em relação a Moçambique é um facto pouco discutido, mas real. A África do Sul, por exemplo, beneficia consideravelmente da procura moçambicana nos seus mercados de bens alimentares e industriais. Um Moçambique auto-suficiente e com capacidade de abastecer o seu próprio mercado, por exemplo, através de uma reabilitada Estrada Nacional Número 1 (EN1), representaria uma quebra significativa para o comércio sul-africano. O mesmo se aplica à Tanzânia, que serve de alternativa para muitos moçambicanos no norte, onde o acesso a bens essenciais ainda é precário.

Neste contexto, pensar que os nossos vizinhos actuarão sempre em função da prosperidade de Moçambique é ingénuo. A lógica do mercado dita que cada país protege os seus interesses, por vezes até recorrendo a acções veladas que minam os esforços de desenvolvimento de terceiros. Há que admitir a possibilidade real de existirem formas de sabotagem económica disfarçadas de “cooperação regional”.

É aqui que entra a responsabilidade do Estado moçambicano. O país precisa, urgentemente, de apostar nas infra-estruturas internas: rodovias, caminhos-de-ferro e corredores logísticos ligados do Zumbo ao Índico para garantir uma circulação eficaz de pessoas, bens e serviços. Mais do que isso, Moçambique deve tirar pleno proveito da sua orla marítima para transporte e exportação, reduzir a dependência de mercados externos para produtos básicos e acelerar o processo de industrialização nacional.

Contudo, nenhum destes objectivos será alcançável sem um combate sério e transparente à corrupção, que continua a drenar os recursos públicos e a sabotar qualquer tentativa de progresso sustentável. A industrialização não é um luxo; é uma necessidade estratégica. Só com um sector produtivo forte e com uma cadeia de valor nacional consolidada poderá Moçambique tornar-se verdadeiramente independente a nível económico.

Outro ponto que não pode ser ignorado é o conflito em Cabo Delgado. A guerra naquela província rica em recursos energéticos não pode ser vista como um mero conflito interno. Há interesses externos em jogo, e essa realidade precisa de ser estudada com profundidade. Os serviços de inteligência do Estado devem ir ao fundo desta questão e actuar com eficácia para proteger os interesses nacionais.

O presidente Daniel Francisco Chapo afirmou recentemente que Moçambique poderá alcançar a independência económica dentro de cinco anos. Esta ambição é legítima  e possível. Mas para que se torne realidade, o país precisa de estar unido, focado e vigilante. A história ensina-nos que até Jesus foi traído por alguém do seu círculo mais próximo. Moçambique, com todo o seu potencial, deve manter-se atento. Na economia, não há irmãos. Há concorrência. E só os preparados vencem.


Categoria: Opinião

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