Intervenientes não escondem a satisfação
Não é todos os dias que se vê o nascimento de um “monstro” infraestrutural com fundos próprios em solo moçambicano. No bairro do Estoril, o som das máquinas mistura-se com a esperança dos residentes. Onde antes o mato impunha o medo, hoje desenha-se um complexo que promete colocar a Beira na rota do desporto internacional. Fomos ouvir quem gere a cidade, quem desenha o sonho e quem, com as mãos sujas de cal, constrói o futuro.
A Visão da Autarquia: “A Cidade Constrói-se com Todos”

Para o Vereador do Desporto no Município da Beira, Manuel dos Santos Mussanema, o projeto é um oásis de desenvolvimento urbano. Em entrevista exclusiva, o vereador não poupou elogios à postura do clube, que assumiu responsabilidades que vão muito além das quatro linhas.
“Para a cidade da Beira é um ganho muito positivo, porque além de melhorar o ambiente urbanístico da própria zona, é um arredor de referência. É um clube estruturado, com infraestruturas próprias, erguido com fundos próprios… é um orgulho enorme para nós, como gestores da autarquia”, afirma Mussanema.
O impacto social é imediato. O clube não se limitou a vedar o seu terreno; abriu caminhos. Mussanema destaca a construção de um posto policial e a reabilitação de estradas como exemplos de patriotismo local:
“A zona é uma zona nobre, mas não existia uma esquadra próxima. Então surgiu alguém e construiu uma esquadra para oferecer um ganho positivo na segurança dos munícipes. É esse espírito que nós queremos dos outros empresários: apoiar a nossa cidade, porque a cidade constrói-se com o movimento de todos.”
Juventude na Encruzilhada: O Desporto como Bússola

Autor do livro Juventude na Encruzilhada, o vereador vê no FC Beira a resposta para o dilema da ocupação juvenil. Ao contrário de outros emblemas que buscam estrelas feitas, o FC Beira “garimpa” o talento no pó dos bairros.
“O próprio clube busca crianças desfavorecidas através dos campeonatos do bairro. O Tavares [Presidente do Clube] nunca comprou jogador. Todos são membros da comunidade. Ele faz o acompanhamento desses jogadores, puxa a orelha quando é preciso para que se foquem”, explica o vereador, revelando que até o seu próprio filho treina no clube sem privilégios: “Está lá a treinar e nunca disse ao presidente que era meu filho. Foi descoberto lá a jogar.”
Engenharia de Sonhos: O Hotel e o Relvado




Se a visão social é o coração, a engenharia é o corpo deste projeto. Carlos Catruza, arquiteto e diretor de obras da JFT, revela que o complexo está em fase acelerada.
- Capacidade de Alojamento: Um bloco transformado em hotel para estágios e acolhimento de equipas.
- Multifuncionalidade: Restaurante, escritórios, ginásios e lojas integradas sob as bancadas.
- Inovação Familiar: Uma sala lúdica onde pais deixam os filhos em segurança enquanto assistem ao jogo.
- O Campo: Relva sintética de última geração, com previsão de testes oficiais já para o final deste ano.
“Queremos mudar o contexto do desporto, não só da província, mas do país. Este campo vai ser de mais-valia para toda a comunidade e para jogadores que vêm de fora”, sublinha Catruza, destacando que mais de 60 trabalhadores garantem o ritmo da obra

No meio do entulho e do cimento, encontramos Tadeu Francisco. A sua história confunde-se com a do próprio estádio. Entrou como “buscateiro” (trabalhador informal) e hoje comanda as frentes de trabalho.
“Eu aqui entrei como um buscateiro. Só que o trabalho que eu fazia sempre puxava por mim. Chegou certo momento, o presidente sentou comigo e disse: ‘vais trabalhar comigo’. Hoje sou respeitado como um pai aqui dentro”, conta Tadeu com orgulho.
Para Tadeu, cada tijolo colocado é a garantia de que a sua filha poderá estudar. “Aqui é onde consigo o pão para a minha família. O que eu espero muito mais agora é terminar toda a obra”.
Expectativas de Ouro

O Vereador Mussanema termina com uma nota de fé no processo. Recorda uma conversa com o presidente do clube sobre a subida ao Moçambola: “Ele disse-me: ‘Primeiro tenho que me focar nas infraestruturas. Assim que terminar, irei focar-me no Mocambola ‘. É um clube que respeita o processo.”
O objetivo final? Que o Estoril produza novos Reinildos e Gildos, mas que, acima de tudo, produza cidadãos. O FC Beira não está apenas a construir um estádio; está a pavimentar o caminho para uma Beira mais “bela, bonita e atraente”.
“É um orgulho não só do presidente, mas da cidade da Beira. É um orgulho da nação.” Manuel dos Santos Mussanema.
